domingo, 12 de abril de 2009

Cap. II – O Abutre

Quanto a mim... Eu nasci com traços abissais. Meu pai pensou ter sido traído por minha mãe e nos abandonou. Quando tinha 10 anos minha mãe faleceu de uma doença até hoje sem cura. A doença atacava os pulmões, atrofiava-os pouco a pouco. Era terrível vê-la tentar respirar, o sofrimento de quem se afoga lentamente sem chances de emergir. E ainda assim, eu tinha prazer ao imaginar todos aqueles a quem odiava na situação dela. Esse tipo de pensamento sempre me assustou muito. Sempre tive medo que o que os outros esperavam de mim se tornasse verdade, que eu me transformasse num demônio sem controle, sem nada a relevar, sem decisões, apenas ódio, fome, sede, e os instintos que levavam à cópula para me guiar.

Voltando à minha mãe.

Por dias sofreu de dores intensas, não conseguia respirar e não podia fazer mais nada além de ficar deitada e se esforçar para ficar viva. E eu observava tudo. Como um abutre. Talvez a morte tenha sido um alívio para ela. Nunca fui muito próximo de minha mãe. Não que não desejasse assim, o fato é que ela jamais teve comigo aquele vínculo materno especial. Ela tinha medo de mim. Todos tinham. Meus olhos de cores diferentes, que pareciam olhar de cima, como um carrasco, um abutre. Ou pelo menos assim dissera minha tia Isolda, que apesar de não gostar de mim, me manteve vivo, sustentando a mim e minha mãe enquanto ela padecia de sua doença. Apesar de tudo ela era minha mãe, e até hoje tento comparecer ao cemitério e pôr uma rosa em seu túmulo em seus aniversários. E observo seu túmulo de cima. Como um abutre.