domingo, 12 de abril de 2009

Cap. III – A Guilda

Após a morte de minha mãe, não tinha para onde ir. Meus parentes jamais criariam um abutre perto de sua prole e, não havendo nenhum orfanato na cidade, acabei acolhido pela elite de guerreiros que treinava aprendizes na minha cidade. Um senhor, um anão, que já tinha cabelos bem grisalhos, uma barba longa e também grisalha e olhar amargo, escolheu me acolher e criar como um soldado. Encaramos-nos como que numa disputa à primeira vez que fui apresentado a ele. Ele tinha olhos muito sérios e não parecia se assustar com o meu olhar, mas mantinha sempre um deles em mim, pois, afinal, nunca se sabe quando a paciência de um abutre termina e ele decide acabar com a vida de sua comida ele mesmo. Ele era o instrutor das aulas práticas.

Foi lá também que conheci Zephir. Um garoto um pouco mais velho que eu, de família abastada e traços extraplanares, como os meus. A diferença é que os dele eram celestiais. Os olhos dele tinham uma aparência que lembrava os do instrutor que acabara de conhecer. Não nego que tentei encara-lo nos olhos como havia feito com o instrutor, mas ele simplesmente se apresentou educadamente e retomou seus afazeres. Tinha olhos claros, cabelos loiros, enquanto eu tinha olhos díspares, um com a íris totalmente negra e outro com a íris totalmente branca e com pupilas verticais, cabelos negros e... Odeio essa parte... Uma cauda. Fazer o que, eu não pedi pra nascer com ela. Apesar de toda a diferença, com o tempo nos tornamos bons amigos. Ele me ensinava sobre a guilda, sobre os afazeres, os costumes, as histórias. E com o tempo adotei o estilo de vida deles, seus costumes, tudo. Já não tinha mais o olhar de abutre. Ou pelo menos assim disse novamente minha tia Isolda, ao me procurar para discutir a herança. Aos poucos, eu e Zephir nos tornamos inseparáveis, como irmãos.

O tempo passava e nosso treinamento na guilda se intensificava. Aprendemos a combater de mãos nuas, para depois passar às armas. Não posso negar minha fixação por espadas grandes. Claro, faça suas piadinhas, já estou acostumado. Mas a sensação de empunhar uma arma assim e combater com ela é incomparável. É uma sensação de poder ótima. Passava horas imaginando como aquilo poderia cortar um ser com intensidade tamanha para lhe arrancar um membro, fazer o sangue jorrar, ouvi-lo gritar de dor e depois suplicar por sua vida, quando lhe apontasse a lâmina ao pescoço, para logo após depois implorar pela morte quando... Mais uma vez me assustei com meus pensamentos. E esses não eram realmente os que me davam medo, porque aqueles que eu estaria torturando, maltratando seriam meus inimigos, e talvez fizessem o mesmo comigo se tivessem a oportunidade. Não, não eram esses que me assustavam.