sábado, 11 de abril de 2009

Cap. I – A Batalha

Tudo começou há centenas de anos atrás. Uma guerra. Uma guerra contra criaturas terríveis, sanguinárias, sem piedade. Uma guerra que os mortais não poderiam vencer. Mas eles não sabiam disso. Por muito tempo tentaram combater as feras sanguinárias, que tinham formação de exército, e atacavam como monstros. As criaturas continuavam a matar. Sua sede de sangue era insaciável, eram protegidos por magia, eram disformes e, aos olhos de cada um, tinham a aparência que mais lhe causasse temor. Ficariam conhecidos apenas como Exército do Medo. As cidades continuavam a cair. Os mortais continuavam a morrer. Até que os deuses intervieram.

Sem mais esperanças, todos se voltaram aos deuses, pois aquilo não era uma tarefa para mortais. Nunca fora. Pediram ajuda a Kaazar e Behamira, os progenitores de toda a vida inteligente, defensores da mesma, da paz e da virtude. Hordas angelicais desceram dos céus para ajudar na guerra.

Depois da ajuda angelical, a batalha não parecia realmente ter um lado vencedor definido, ambos derrubavam muitos inimigos, mas também tinham muitas baixas. A guerra parecia não ter fim, mês após mês as batalhas seguiam, e nenhum lado realmente avançava. Era hora de pedir mais ajuda.

Aqueles que veneravam Kuutuz, o deus maligno irmão de Kaazar, conhecido comumente como “O invejoso”, não se interessaram nem um pouco em se envolver em tão dispendiosa guerra. Então, tiveram de ser “convencidos”. Niamletus, sumo-sacerdote do deus, na época sob custódia do reino, preso com algemas mágicas numa sala que o impedisse de receber qualquer influência externa, recebeu então uma visita inesperada.

- Niamletus, sem sobrenome, acusado de traição, por venerar o deus maldito, por incitar guerras entre reinos, por matar e pilhar vilarejos, e por incontáveis mortes em sacrifício ao deus maldito.

- Se veio aqui saudar minhas realizações deveria trazer pelo menos um pouco de bebida alcoólica, não acha, majestade? – Apenas espiara quem era aquele que entrava em sua cela, mantendo a cabeça abaixada, ajoelhado, com os braços presos para trás. O cabelo já grisalho caindo sobre o rosto duro, de pontas quadradas e barba desajeitada.

- Pares de ser irônico. Vim para fazer-te uma proposta.

- Achei que o rei não negociasse com servos do maldito.

- Não te devo explicações. Queres ouvir ou não a proposta?

- Ora, vindo de vossa majestade, qualquer coisa. – e por debaixo do cabelo, um sorriso sarcástico.

O Rei Belken lhe disse então o que acontecera, das criaturas temíveis que assolavam o reino e além, da guerra sem fim, da dor e do sofrimento que o povo sofria. Niamletus ficou extasiado com a história, mas também ficou curioso. Então, o Rei lhe disse o motivo de ali estar.

- És um monstro, Niamletus. Mas és honrado de seu próprio modo. Dar-te-ei tua liberdade enquanto lutar na guerra. Sei que tentarás escapar, por isso, te darei três dias de vantagem na fuga. Depois disso, serás caçado como o animal que é. O que me dizes?

Um sorriso sádico por debaixo de todo aquele cabelo, os olhos se enchendo de alegria selvagem, por poder reaver sua liberdade, voltar a sentir o poder de seu deus fluir em si, poder fazer tudo que ali não mais podia: causar dor, comer boa comida, estuprar mulheres, usar boas roupas, matar lentamente aqueles responsáveis por sua captura, comer comida que não tivesse gosto de sabão... Eram tantas as vontades...

- Aceito.

Os soldados viram naquela semana chegarem outros guerreiros, encapuzados em negro, que não falavam, e cujas magias emanavam auras negras. Logo, demônios e criaturas terríveis começariam a aparecer no campo de batalha, do lado dos mortais. Mas ninguém questionou. Quem quer que fossem não poderiam ser piores do que aqueles contra quem lutavam.

A batalha foi vencida. Mas as tropas aliadas deixaram suas marcas. Sejam as criaturas angelicais que se apaixonaram ou viraram escravos dos mortais, seja pelo tributo de pecado cobrado pelas tropas infernais. O fato é: essências se misturaram. Várias gerações depois nascem indivíduos com traços deixados pelos seres extraplanares, vindos dos reinos dos deuses aliados. Seja considerada benção por alguns, ou castigo divino por outros.