E aqui estou eu, correndo atrás de um homem, que não é muito mais que um esqueleto, devido a séculos de idade e magias que lhe consumiam a essência. Chove intensamente. O céu está nublado e o dia está cinzento. Corro no meio de uma cidade, tendo que ceifar vidas de pessoas inocentes, simplesmente por que estão no caminho. A espada parece pesada. E de fato é. Não é como a maravilhosa espada amaldiçoada que portava anos atrás. Não tenho mais o amor movendo meus músculos. Apenas ódio. Vingança. Mas o peso da espada, que deve ter o tamanho de uma porta, não fará diferença agora.
Movemos-nos a uma velocidade inalcançável e inimaginável pelas pessoas que nos rodeiam. Eu a passos mais rápidos que um cavalo pode pensar em cavalgar. E ele flutua velozmente a pouco mais de um metro do chão. Balanço a espada para livrar meu caminho de um eventual transeunte que entra na minha frente. E mato. Mato sem razão. Mato como o homem a quem persigo mata. Mas nunca desejaria ser como ele, que tem prazer com a dor alheia, que mata e tortura apenas por diversão.
Por isso o persigo. Para que não mate e torture mais. Para que não faça mais pessoas sofrerem. Mas me livro de qualquer um que entrar em meu caminho agora. Pois demorei muito para chegar onde estou. E uma chance dessas eu não posso desperdiçar. Levei mais de trinta anos para chegar onde estou. E não desistirei dessa caçada tão facilmente.
Mais à frente, ele ofega. E, mais importante que isso, ele teme. Teme como não temia em séculos. Teme por sua vida. A vida que ele acreditou ser infindável, devido ao pacto que selara há muito tempo. Ele passa por entre as pessoas, numa tentativa de me atrasar, para que ele possa fugir. Mas não adianta. Nada adiantaria.
Enfim, eu o alcanço. Numa praça aberta e sem pessoas em volta. Posso acertá-lo se ele tentar fugir voando. E ele sabe disso. Seu riso diabólico e maníaco, que sempre portava consigo agora é apenas uma face de desespero. Ele ofega. Eu tenho boa parte de meu rosto coberto pela sombra do capuz.
Aqui travaremos a batalha final de uma guerra pessoal que começara há muitos anos. Estamos encharcados pela chuva. Ele em seus trajes que um dia foram da mais alta costura, mas hoje se parecem mais com farrapos. Eu com minhas roupas de caçada: calças, camisa e casaco negros. Mantemos contato visual. Preparamos-nos para o choque que será a nossa batalha. Há muito tempo não estive tão feliz.